Usar o 13º para pagar dívidas é o melhor conselho?

 

Final de ano é sempre a mesma coisa. A pergunta sempre surge nos programas de TV, na Internet, nas revistas, nas redes sociais: o que fazer com o 13º? Em geral, a resposta é sempre a mesma: é melhor usar o 13º para pagar dívidas.

O conselho parece bom, mas…

Acontece que toda mensagem carrega mais informação do que é expressa pelas palavras. Por exemplo, se você foi a um espetáculo artístico e eu pergunto: “o que você gostou no show?”, estou fazendo mais do que uma pergunta sobre a sua percepção do show. Estou incluindo um pressuposto sutil: que você gostou do show, pelo menos em parte. Repare que eu não pergunto “se” você gostou do show; eu pergunto “o que” você gostou. Assim, você vai encontrar alguma coisa positiva para falar, mesmo que. no geral, não tenha gostado do evento.

Isso é muito usado em certas entrevistas, quando o entrevistador usa as palavras “certas” com o objetivo de obter do entrevistado apenas a resposta que deseja. Se a pergunta for “o que gostou”, dificilmente receberá como resposta algo como “não gostei”.

Voltando ao caso do 13º salário: o que fazer com essa renda extra? A resposta está na ponta de língua: pague suas dívidas.

Que pressupostos e mensagens estão escondidos nesse conselho?

Em primeiro lugar, há o pressuposto de que a maioria das pessoas, inclusive você, tem dívidas. Então, você não está sozinho, você faz parte da galera. Outro pressuposto é que ter dívidas é normal. Então, se você tem dívidas, você é normal. Mas, a pior mensagem escondida nas palavras, e não perceptível conscientemente, é que você pode passar o ano inteiro fazendo dívidas, porque no final você tem o 13º para pagá-las. Em suma: essa renda extra tornou-se mero instrumento para “ajustar as contas” no final do ano.

Se considerarmos que parte das dívidas que ficam para serem liquidadas com o 13º é juros – porque o principal foi sendo pago nas prestações mensais – é fácil concluir que você está literalmente jogando seu 13º no ralo. Você já se deu conta de que pagar juros é desperdício de dinheiro, não é?

Então, para quê deveríamos usar o 13° salário? Nem é preciso falar sobre poupar. Isso é óbvio. Guardar uma boa parte na poupança/investimento para projetos futuros, compras, viagens etc. Isso sim é um ótimo conselho.

Porém, além de poupar, duas coisas importantes você deveria fazer com seu 13º salário:

Reservar uma parte para os gastos do início de ano: matrícula e material escolar, IPVA-Licenciamento do carro, IPTU etc. No caso do IPTU, aproveite o desconto para pagamento à vista, em vez de parcelar.

E a outra parte? Use para sua ceia de Natal, para a festa de réveillon, para os presentes, para levar a pessoa amada a um jantar, para uma roupa nova; aproveite!

Faz sentido gastar seu 13º com diversão e coisas agradáveis para você em vez de engrossar o lucro dos bancos e financeiras? Faz sentido imaginar que pagando dívidas você está bancando o réveillon, as festas, os presentes, as viagens, os jantares, os iates e os jatinhos da família dos donos dos bancos e financeiras? Faz sentido você dar um destino mais nobre ao seu 13º em vez de desperdiçá-lo pagando juros de dívidas?

É claro que para fazer isso você precisa chegar ao final do ano sem dívidas. Então, se você está com dívidas este ano, desta vez (só desta vez) você está autorizado a pagá-las usando seu 13º.

Mas, a partir do próximo ano, organize-se, evite qualquer tipo de dívida (no crediário, no cartão, no consignado…) e comece a pagar suas compras e contas sempre à vista. E quando chegar o próximo final de ano, você terá a oportunidade de dar ao 13º o destino que ele merece. E que você merece!

Como você se sentirá ao receber o 13º e perceber que tem plena liberdade de decidir o que fazer com ele? Qual seria a sensação de usar o seu 13º com você mesmo?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *