As armadilhas por trás das prestações mensais

Há muitas razões para uma loja preferir uma venda em prestações a uma venda à vista. Por isso é que são tantas as opções do tipo “10 x sem juros”. Vamos conhecer algumas dessas armadinhas por trás das tentadoras “suaves prestações mensais”.

Imagine que eu seja o dono de uma loja de automóveis. A política de nossa loja é vender em 10 vezes pelo mesmo preço à vista. Ou seja, se você for à nossa loja para comprar um carro que custa R$ 50.000,00, pode pagar à vista ou em 10 prestações mensais de R$ 5.000,00.

Isso parece um bom negócio para mim, vendedor?  E para você, comprador?

Primeira armadilha: levar vantagem.

Na sociedade competitiva e individualista em que vivemos, queremos sempre ser o melhor, o mais rápido e mais esperto. Quando aparece uma proposta dessas, ficamos cegos, deixamos nos levar pela ganância, e não analisamos com racionalidade. Concluímos, precipitadamente, que estamos levando vantagem: por que pagar à vista, se é possível pagar parcelado? Se você pagar em dez vezes pode deixar o dinheiro aplicado (caso já tenha os R$ 50.000,00) e, com isso, ainda obtém algum rendimento. Certo? Não, não é bem assim!

A verdade é que R$ 50.000,00 já é o preço a prazo. Talvez até mais. Se você pesquisar um pouco, talvez consiga comprar o mesmo carro em outra loja por menos de R$ 45.000,00.

Segunda armadilha: a velha luta entre dor e prazer

Há entre nós uma eterna luta entre a busca do prazer e o afastamento da dor. Tudo fazemos para eliminar desconfortos, tristezas, frustrações etc. Esforço semelhante empreendemos para conquistar conforto, alegria, bem estar etc. Esse “afastamento” e “aproximação” está relacionado tanto ao espaço quanto ao tempo.

Por exemplo, quando acontece uma coisa desagradável, como uma perda ou uma tragédia, é comum sofrermos muito nos primeiros instantes. Com o passar do tempo,  depois de algumas semanas ou meses, tudo fica mais calmo; e aquele evento já não desperta tanto sofrimento.

O que acontece é que há um afastamento temporal do evento. Aquela situação ficou no passado, longe, e não tem tanto o poder de nos afetar emocionalmente.

O interessante é que isso acontece tanto em relação ao passado quanto ao futuro. É por isso que adiamos tarefas chatas, como terminar aquele TCC no último dia do prazo. Nós queremos o prazer imediato, e o desconforto bem longe, no futuro.

Quando a loja oferece as “prestações sem juros”, ela está exatamente usando a estratégia de nos dar o prazer agora, tudo de uma vez, com a possibilidade de dividir nosso sacrifício (pagamento) em suaves prestações mensais futuras e distantes. Como nosso cérebro faz a comparação “prazer agora” versus “sacrifício agora”, o resultado é a satisfação de ter pago apenas R$ 5.000,00 por um carro de R$ 50.000, 00.

Melhor ainda se for “sem entrada”. Nosso cérebro é enganado direitinho. É como se estivéssemos recebendo um presente. Afinal, você está“ganhando” algo “agora” e não está pagando nada. Parece simplista, mas é bem isso que acontece, por que nosso cérebro usa, a todo momento, essas comparações DOR x PRAZER para tomar decisões.

Terceira armadilha: voltar e gastar mais

As lojas mais “espertas” fazem você voltar todos os meses para pagar as prestações. Atualmente graças à internet, smartphones, etc., podemos pagar tudo “on-line” sem sair de casa. Então,  por que obrigar o cliente a voltar à loja?

Você já percebeu que o Caixa quase sempre fica nos fundos das lojas? Você entra para pagar a prestação, passa por aqueles infinitos corredores cheios de ofertas e, frequentemente, acaba comprando mais alguma coisa.

É claro que existem outras armadinhas, mas acredito que essas três sejam suficientes para ajudar você a tomar a sábia decisão de evitar compras em prestações.

(Adaptado do livro “Como viver melhor gastando menos”)