Visão de Mercado e visão do consumidor

A estratégia do Mercado é a busca do lucro, que é base da sua existência e sobrevivência. Não há nada de errado com isso.

Mas, nós precisamos olhar a questão sob o ponto de vista de consumidor. Por exemplo, interessa ao Mercado quanto o consumidor pode pagar por mês e se cabe no seu orçamento, a fim de evitar inadimplências e prejuízos. Mas, não importa ao Mercado se o consumidor vai reduzir sua qualidade de vida, fazer sacrifícios, passar necessidades e deixar sonhos pelo caminho para pode pagar as prestações. E não faz diferença para o Mercado se você gastou R$ 100,00 para comprar algo que você vai curtir e mais R$50,00 com juros, que apenas vai engrossar o lucro da loja e não vai te trazer nada, absolutamente nada. Na visão do mercado o que interessa é o lucro, independentemente de ser da venda de um produto/serviço ou da venda de crédito (juros). A verdade é que muitas lojas lucram mais com fazendo empréstimos do que vendendo produtos.

E, cá entre nós, essa coisa de “comprometer no máximo 30% da sua renda com empréstimos” é uma grande armadilha. A gente vive ouvindo isso de “especialistas em finanças”, mas precisamos lembrar que isso também só interessa ao Mercado. Por quê?

Porque se o consumidor chegar a esse grau de comprometimento da renda com dívidas, provavelmente não conseguirá mais honrar seus compromissos e deixará de pagar suas contas. Ora, a quem isso afeta? Evidentemente, aos credores, ao Mercado. Então, “ensinar” a não comprometer mais do que 30% da renda, e uma estratégia do tipo “sufoca, mas não mata”. Tiram o máximo que podem de nós, mas nos deixam vivos, para nos manter comprando: é a moderna escravidão. Nos regimes de escravidão, os escravos ficam devendo aos seus senhores e nunca se livram das dívidas. O sistema apenas se moderniza.

Então, esqueçamos isso de 30% da renda com empréstimos. Isso é estratégia que só interessa aos credores para, pelo menos em tese, receberem o que emprestaram. A “nossa” estratégia, como “consumidores”  deve ser parar de trabalhar de graça, ou melhor, parar de trabalhar para enriquecer os outros.

Precisamos ser espertos e focados para não entrar no jogo do Mercado.

Ora, a maioria dos consumidores levanta cedo todos os dias e passam oito, dez, doze horas entre trabalho e trânsito. Muitas vezes têm que submeter a situações que nem sempre são agradáveis  no trabalho, como chefias pouco amigáveis, metas impossíveis de serem alcançadas, pressões, estresse, etc. Em resumo, salvo alguns sortudos, a maioria de nós tem que “ralar” para obter uma renda razoável para sobreviver e ter algum conforto.

Então, por que razão as pessoas, deliberadamente, transferem todos os meses parte considerável da sua renda suada para os bolsos dos donos das lojas, das financeiras, dos bancos, ou seja quem for? Faz algum sentido reclamar todo santo dia do salário, dos impostos, da inflação… e desperdiçar com juros!?!?!

(Adaptado do livro “Como viver melhor gastando menos”)