Salário e Motivação

Tenho ouvido com cada vez mais frequência a expressão “Salário não motiva!”. Preocupa-me em especial porque normalmente tal afirmativa provém de profissionais de Recursos Humanos e gestores de pessoas.

Por que será que as pessoas vão para o trabalho todos os dias?

Sinto-me muito à vontade para falar sobre esse assunto, pois ao longo dos últimos anos tive a oportunidade de aprender algumas coisas a respeito de como a situação financeira afeta a vida das pessoas e os efeitos que provoca na sua autoestima, nos relacionamentos, na saúde física, no desempenho profissional e na satisfação com o trabalho.

Creio que essa expressão nasceu de uma interpretação equivocada da chamada teoria dos Dois Fatores. De acordo com estudos feitos por Herzberg, Mausner e Snyderman, publicados no livro Motivation to Work, existem duas classes de fatores relacionados com a motivação humana: os fatores higiênicos ou profiláticos e os fatores motivacionais. Os primeiros, quando existem, não provocam motivação, mas desmotivam quando ausentes. Têm por função evitar a insatisfação. Os fatores motivacionais, por sua vez, são capazes de gerar motivação.
Fatores higiênicos são, por exemplo, condições de trabalho, segurança, relacionamentos e salário. Entre os fatores que geram motivacão destacam-se: reconhecimento, oportunidade de crescimento, responsabilidade e realização.

Na verdade, os dois grupos de fatores afetam a motivação. Uns a mantém e outros a estimulam. Uns impedem a desmotivação e os outros aumentam a motivação.

Salário/renda é um dos fatores que podem desmotivar quando as pessoas têm a sensação de que não ganham o quanto precisam ou merecem. E ai é que está o xis da questão.

Repetindo: salário é um fator que pode causar (atenção!) “desmotivação”. De nada adiantam prêmios de reconhecimento, tapinhas nas costas e placas de “funcionário do mês” se o sujeito achar que a empresa não paga o que ele merece ou precisa.

E há mais um problema: a percepção acerca da satisfação com o salário não depende tanto das cifras no contracheque, mas do que as pessoas fazem com o dinheiro depois de recebê-lo: o quanto de qualidade de vida e realização de sonhos o salário é capaz de trazer.
Quem vive com as finanças desorganizadas costuma reclamar sistematicamente do salário e nenhum programa motivacional poderá mudar sua atitude profissional. E os aportes financeiros raramente resolvem os problemas com dinheiro e podem, inclusive, agravá-los. Se o salário aumenta, as pessoas saem logo assumindo novas dívidas e em pouco tempo a sensação de que o salário “não dá” está de volta. Os empréstimos consignados são armadilhas, ou melhor, um poço sem fundo. Além disso, se a empresa concede um empréstimo com desconto em folha, o salário fica ainda menor com a dedução das parcelas no contracheque. E ai a sensação de ganhar pouco é ainda mais intensa. Afinal, ninguém presta atenção na coluna de descontos. As pessoas vêem apenas o salário liquido.

Por outro lado, hábitos saudáveis de consumo, planejamento, poupança e uso adequado do crédito contribuem para a satisfação com o trabalho, o desempenho e a motivação, pois a saúde financeira elimina fatores de insatisfação e gera fatores motivacionais, como a sensação de independência e realização.

© Nério Venson