Escola e educação financeira

Finanças. Tema tão importante para a vida de qualquer pessoa, deveria fazer parte do currículo escolar oficial e dos assuntos discutidos em família.

Não é o que se constata na prática. As famílias, de maneira geral, não se sentem preparadas para orientar adequadamente seus filhos sobre dinheiro. O sistema educacional, por sua vez, foi concebido para desenvolver habilidades e competências profissionais e acadêmicas.

Isso era suficiente na era industrial, mas os novos tempos trouxeram mudanças estruturais que exigem uma preocupação maior com o próprio futuro. Tornou-se indispensável introduzir novas disciplinas e novos conceitos no currículo escolar, em todos os níveis, que levem em conta as grandes transformações em curso, nas relações entre capital, trabalho e Estado, e que afetam a vida de todos.
Os filhos da era da informação devem aprender a jogar com as novas regras. Com a redução do emprego, de seus benefícios e da tutela estatal, as habilidades financeiras tornaram-se tão importantes para o sucesso quanto os conhecimentos acadêmicos e as competências profissionais.

Nossa geração sofre os efeitos da falta de instrução financeira: cerca de 85% das famílias brasileiras não conseguem equilibrar seus orçamentos domésticos, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE (2002/2003). Por outro lado, boa parte da renda é utilizada para pagamento de juros em empréstimos e crediários, quando poderia ser aplicada na melhoria da qualidade de vida das famílias.
Os problemas financeiros nem sempre se resolvem com mais renda. A realidade é que, para a maioria das pessoas, os problemas com dinheiro crescem à proporção direta de seus rendimentos, o que denota a falta de instrução financeira e preparo emocional para lidar com questões relacionadas ao dinheiro.

O desequilíbrio financeiro não é característica exclusiva de famílias com baixos níveis de renda e instrução. Pessoas competentes em suas profissões, com pós-graduação e salários altíssimos padecem do mesmo mal. A questão é que pouco – ou quase nada – aprendemos sobre finanças do pré-escolar ao pós-doutorado.
Preocupadas com o sucesso e a formação plena dos jovens, algumas escolas estão introduzindo atividades extracurriculares relacionadas às finanças. Há uma compreensão de que não basta aprender a gerar renda através de uma atividade profissional; é preciso saber administrar os rendimentos de forma racional e inteligente para alcançar sucesso, bem-estar e qualidade de vida. Além disso, os jovens precisam ter a consciência de que a ética e a responsabilidade social devem estar presentes nas relações econômico-financeiras e na geração e uso da renda.

A forma como nos relacionamos com o dinheiro na vida adulta é reflexo do nosso aprendizado na infância e na adolescência. A partir dos três anos de idade a criança começa a entender e assimilar informações relacionadas ao dinheiro e a desenvolver a sua mentalidade financeira. Mas é por volta dos nove anos que se inicia um ciclo – que pode ir até dezesseis ou dezoito anos – no qual a criança e o adolescente começam a se desligar da identidade dos pais e a buscar sua própria identidade. Ao final do ciclo, o adolescente terá determinado a sua fórmula para o sucesso, ou seja, a idéia que tem para sobreviver e vencer. O que terá ele aprendido sobre dinheiro fará parte dessa fórmula e será vital para o seu futuro. Concluído esse ciclo fica mais difícil mudar percepções, atitudes e comportamentos relacionados ao consumo e às finanças em geral.

Daí a importância de a Educação Financeira fazer parte do currículo da Educação Básica. Desde o pré-escolar, passando pelo ensino fundamental (com mais intensidade), até o ensino médio, é possível introduzir no currículo oficial ações e atividades de educação financeira, de acordo com a capacidade de entendimento de cada fase.

As atividades pedagógicas de educação financeira devem levar a aquisição de habilidades para o uso racional e inteligente do dinheiro como forma de gerar qualidade de vida e independência financeira; apresentar noções relacionadas ao mundo econômico e financeiro; tratar dos aspectos relacionados ao controle e custo do dinheiro tais como juros, empréstimos, investimentos e demonstrações financeiras; apresentar informações e ferramentas para o planejamento financeiro e o controle orçamentário pessoal; introduzir conceitos contábeis, financeiros e econômicos; orientar sobre o gerenciamento da mesada e outras rendas; indicar as principais formas de geração de renda e orientar sobre a escolha de profissões.

Os estudantes devem ser estimulados, por meio de palestras, atividades e dinâmicas, a descobrir e a desenvolver a autoestima, a buscar a própria realização – superando pseudovalores estabelecidos no meio em que vivem. As informações e atividades devem incentivar os estudantes a fazerem escolhas, dando-lhes maior segurança para tomada de decisões, especialmente na área profissional.
Os estudantes e futuros profissionais precisam estar preparados para superar com confiança, determinação, competência e inteligência os desafios que os novos tempos descortinam, de forma a se tornarem adultos bem sucedidos pessoal, profissional e financeiramente, conquistando, assim, a plena realização humana.

© Nério Venson